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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

hey, Lênin!



Exatamente às oito horas e quarenta minutos, uma tempestade de aplausos anunciou a chegada da Presidência, com Lênin, o grande Lênin, à frente.
Uma silhueta baixa. Cabeça redonda e calva, mergulhada entre ombros. Olhos pequenos, nariz rombudo, boca larga e generosa. Mandíbula pesada. Estava completamente barbeado. Mas a sua barba, dantes tão conhecida e que daquele momento em diante iria ser eterna, já começava a despontar novamente. O casaco estava poído; as calças eram compridas demais. Sua aparência física não indicava que ele poderia ser um ídolo das multidões. Mas foi querido e venerado como poucos chefes em toda a História. Um estranho chefe popular. Chefe só pelo poder do espírito. Sem brilho, sem ditos chistosos, intransigente e sempre em destaque, sem a menor particularidade interessante, mas possuindo, em alto grau, a capacidade de explicar ideias profundas em termos simples e de analisar concretamente as situações. Senhor de progidiosa audácia intelectual. Tal era Lênin.
(...)
Sua grande boca parecia sorrir. Abria-se inteiramente quando falava. A voz, apesar de rouca, não era desagradável. Estava como endurecia por anos e anos de discursos. As palavras saíam num tom monótono, sempre igual. Tinha-se a impressão de que sua voz nunca mais ia se interromper. Quando desejava frisar, deixar bem claro uma frase, uma ideia, Lênin inclinava-se ligeiramente para a frente. Não gesticulava. E, a seus pés, milhares de rostos simples estavam voltados para ele, numa expressão de profunda alegria interior, numa espécie de intensa adoração.

Fragmento do livro "10 Dias que Abalaram o Mundo", de John Reed.

Cáp. V - Ao Trabalho - pág. 176 e 178

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Sigilo

Segundo o dicionário Michaelis, a palavra 'sigilo' é de origem latina, sigillu, e é tido como segredo absoluto, mistério, discrição.
Se tudo der certo (e dará), no próximo ano alcançarei algumas de minhas metas. Como eu disse no meu segundo post, não sou uma pessoa com muitos laços familiares, e quem tem família relativamente grande, sabe do que estou falando. Adoram perguntar.
E adivinha: eu ODEIO falar dos meus planos para as pessoas por ai.
Tem certas coisas que são secretas, mas no fundo você reconhece que não são segredo absolutos. É como uma conta bancária: as pessoas sabem que você tem uma, mas elas não precisam saber quanto você movimenta lá por ano.
Sempre achei bobagem contar tudo para todo mundo. Todos temos segredos, e não há ninguém melhor que nós mesmos para avaliar quem é digno de saber. Sejam nossos pais, nossos amigos, nossa pessoa especial ou até mesmo um desconhecido, ninguém pode interferir nesse direito de escolha.
Além do mais, o mundo está infestado de pessoas negativas que querem puxar o tapete do próximo na primeira oportunidade; para essas, o importante é que saibam que estamos vivos, e nada mais.
Concluindo: conte a sua "quantia bancária" para quem é digno de saber, e não para qualquer idiota que perguntar. Cada um coloca os cadeados onde melhor convir, e fim de papo.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Quantidade x Qualidade

Aproveitando a ideia de um outro post do qual ainda escreverei, percebo que ao longo dos anos, as pessoas encontram formas para socializar, se divertir, ou até mesmo para se sentirem melhor consigo mesmas. Uma destas, que não me agrada muito, é o esquenta. Consiste em chamar a sua "galera", encher a cara e fazer jogos com álcool antes de ir para festas. A regra principal deveria ser: Beba até cair, e se vomitar o estômago, melhor.
[Wat?]
Nisso, entra um fator do qual eu adoro, que é o da quantidade e da qualidade. Entrando no mérito das bebidas, quem conhece minimamente sabe que bebidas boas são bebidas caras - as outras são 'tomáveis', para não usar outros termos. Por exemplo, existe uma variedade grande de vinhos na região que moro; entretanto, vinhos bons de verdade, você paga, por baixo, 37 reais a garrafa, enquanto pagaria 12 em um qualquer. Vinhos bons são resultado de boas safras, logo o seu valor aumenta, e vale muito a pena pagar quase 40 reais em uma garrafa. Sinceramente? prefiro pagar caro por uma dose de Jack, ou então não tomar nada, ao ter de beber aquelas bebidas nojentas com gosto de suco tang com álcool. No livro Leão-de-Chácara, de João Antônio, há uma passagem da qual diz que o whisky era uma mistura de chá mate com iodo, se não me engano. Quando escuto relatos de 'esquentas', ou frases do tipo "Cara, tomei um porre ontem" lembro disso, e me pergunto se no fim das contas não tomaram um porre de misturas assim.
O que é caro, geralmente é ótimo, e geralmente vem em pouca quantidade. Talvez seja isso que traga o seu charme, pois qualquer um sabe que no momento em que tal coisa fica popular, a qualidade cai. Pois bem, se for pelo bem da qualidade, que subam os preços; enquanto houverem pessoas que não sabem degustar um vinho perfumado, ou um chocolate irresistível, que continuem pagando barato por seus projetos de produtos. No fim, a economia gira, e as coisas boas ficam para alguns. Nada mal.


quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A Gaiola



E era a gaiola e era a vida era a gaiola
e era o muro a cerca e o preconceito
e era o filho a família e a aliança
e era a grade a filha e era o conceito
e era o relógio o horário o apontamento
e era o estatuto a lei e o mandamento
e a tabuleta dizendo é proibido.
E era a vida era o mundo e era a gaiola
e era a casa o nome a vestimenta
e era o imposto o aluguel a ferramenta
E era o orgulho e o coração fechado
e o sentimento trancado a cadeado.
E era o amor e o desamor
e o medo de magoar
e eram os laços e o sinal de não passar
E era a vida era a vida o mundo e a gaiola
e era a vida e a vida era a gaiola.

Poema de Apud Alda Beraldo, A Gaiola.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Indicações: O Filho Eterno


Eu confesso, este livro me surpreendeu. Assim como eu disse várias vezes, à princípio, eu não o leria caso não precisasse, - é, é um dos livros para o vestibular - entretanto, devorei quase 130 páginas hoje, tanto que já o terminei.
Ele trata, basicamente, de um homem que fracassa como escritor, e quando seu filho nasce, possui a trissômia do cromossomo 21 - ou Síndrome de Down, como preferir. Quando li isto nas abas, pensei: "Pronto, mais uma daquelas estórias cheias de lições de vida, exemplos de superação e como ser politicamente correto em 5 dias."
Mas, não foi bem assim. Cristovão Tezza criou um universo cheio de incertezas, com a sensação de que algo deu errado no meio do caminho, em que, querendo ou não, é preciso achar um culpado para tudo aquilo, como ele mesmo diz, um altar para o qual possa se esconder, nem que esse altar seja edificado sobre o filho. É uma radiografia sensível, sem aquela pretenção em agradar o leitor, mas sim em mostrar as coisas como elas são, sem rodeios, mas ao mesmo tempo, sem tirar a sutileza dos gestos.
A linguagem é outro ponto interessante; percebe-se claramente analogias a escritores famosos, repúblicas (como a de Weimar, em uma passagem bem sacada) e sistemas políticos, clássicos do cinema e paralelos pensados e repensados. Em suma, não é um livro popular, pois foi milimetricamente calculado e avaliado.
Este livro recebeu vários prêmios, entre eles o de melhor livro de 2008, e o que mais me orgulha é que é de um escritor catarinense.
Enfim, é um ótimo livro, espero ter oportunidade de reler e de tê-lo em minha prateleira, e com isso, concluo a minha indicação.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O coral


Winston só levantou dali a uns minutos. O quarto escurecia. Voltou-se para a luz e ficou examinando o peso de papéis. O que lhe oferecia inexaustível interesse não era o fragmento de coral, porém o interior do vidro em si. Tinha tremenda profundidade e no entanto era quase transparente como o ar. Como se a superfície do vidro fosse a abóboda celeste, contendo um pequenino mundo, completo com sua atmosfera. Winston tinha a impressão de poder penetrá-lo, e que de fato estava nele, junto com a cama de mogno e a mesa dobradiça, o relógio, a gravura em aço e o próprio peso de papéis. O peso de vidro era o quarto em que estava, e o coral era a vida de Júlia e a dele, fixadas para a eternidade no coração do cristal.

Fragmento do livro 1984, George Orwell; cáp. 12, pág. 129

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

The Last Samurai

A cidade está linda. Ela está em tons de rosa e branco, pelas azaléias; nesta semana, enquanto passava pela rua, fiquei encantada por aquelas flores tão lindas. E claro, as flores de pêssego também. Em minha casa, elas estão lindas, e percebi que elas são muito parecidas com as flores de cerejeira, no Japão. São tão delicadas quanto.
E concluindo isto, lembrei de uma frase do filme O Último Samurai, em que se diz que "Você pode passar a vida toda procurando a flor perfeita, e não será uma vida perdida."
Eu passei boa parte da minha vida tentando encontrar a felicidade, a satisfação pessoal, e até mesmo a perfeição. Mas isso foi equivocado, pois a perfeição está nas pequenas coisas, nas pessoas, nas flores, ou puramente no ar que respiramos. Eu olho ao meu redor, e vejo como eu o mundo foi generoso comigo; a cada dia, eu tento melhorar em algum aspecto, seja comigo mesma, seja com aqueles que fazem parte da minha vida. Existem pessoas que 'ficam' felizes, e eu não quero pertencer a este grupo nunca. Eu SOU feliz, e eu quero retribuir ao mundo tudo o que sinto hoje.
A 'flor de cerejeira perfeita' sempre será um sonho, mas um sonho possível.
Certa vez, ouvi um comentário de um médico especializado em medicina tradicional chinesa, sobre a vida. Ele disse que talvez ele fosse estranho, pois enquanto algumas pessoas são felizes em seus finais de semana, ele era feliz todos os dias.
Os problemas existem, é verdade. Mas ao invés de ficarmos nos preocupando com coisas levianas, como a opinião alheia, por exemplo, deveríamos nos ocupar mais com a nossa felicidade. Você está feliz? ótimo, é o que importa. Dizem que a mudança deve começar por nós mesmos.
Tá com vontade de dançar? Dance. Tá com vontade de gritar? grite. Mas viva, viva enquanto você pode.